domingo, junho 14, 2009

Superdotados desenvolvem habilidades dentro de programa especial em Maringá

Aos 9 anos de idade, o garoto explica com destreza como calcular a raiz quadrada de um trilhão. Para fazer a conta, Samuel Vianna Quintanilha, aluno da terceira série do ensino fundamental, dispensa lápis, papel e calculadora. Em dez segundos vem a resposta: “É um milhão”, diz ele, confiante de que a conta está certa. E está.

Samuel é um dos 14 estudantes com altas habilidades que frequentam, duas vezes por semana, a sala de recursos para alunos identificados como portadores de superdotação, no Instituto Estadual de Educação de Maringá.

Na manhã de terça-feira (9), cinco estudantes feras em matemática, com idade entre 8 e 12 anos, disputavam uma partida de banco imobiliário e tentavam encontrar uma forma de calcular a raiz quadrada de um número decimal.

“Eles fazem operações matemáticas que os estudantes do ensino médio estão aprendendo”, conta a professora da turma, Luciene Celina Cristina Mochi, especialista em educação especial.

No Paraná, são 254 estudantes com altas habilidades atendidos pelo governo do Estado; 34 estão em Maringá. O governo estadual implantou duas salas de recursos na cidade.

A primeira delas começou a funcionar em 2004, no Instituto de Educação. A outra, com 20 estudantes, fica no Colégio Estadual Gastão Vidigal. As salas oferecem suporte pedagógico e enriquecem o currículo dos alunos.

Meninos e meninas frequentam a escola regular e, no contraturno, vão para as salas de recursos. “Nas salas, as crianças não se sentem constrangidas em ter interesses que os colegas da mesma idade não demostram”, diz a chefe do Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional do Estado do Paraná, Angelina Mateskei.

Por enquanto, somente estudantes do ensino fundamental têm suporte pedagógico na cidade. O Núcleo Regional de Educação de Maringá aguarda autorização da Secretaria Estadual de Educação para iniciar atendimento aos estudantes de outras séries. Curitiba, Londrina, Campo Largo e Fazenda Rio Grande são as outras cidades onde há atendimento especializado.

Luciene explica que, durante as quatro horas semanais que as crianças permanecem no Instituto, elas têm a oportunidade de aprofundar o assunto que lhes interessou durante a aula ou temas que não estão no currículo das escolas.

O professor tem que dar conta do conteúdo e não pode ir além porque tem um cronograma a cumprir. “Sem o apoio extracurricular, o aluno fica sem a chance de enriquecer as habilidades.”

O ingresso de um aluno no Serviço de Apoio Especializado parte da observação do professor da escola regular. Passa, primeiro, por avaliações e entrevista para identificar suas habilidades. As avaliações são feitas pelos professores especialistas em educação especial, que fazem parte do projeto do governo do Estado.

Os pais também participam de uma entrevista. “Só depois disso poderemos encaminhá-lo para a sala de recursos”, diz Luciene. Os 14 estudantes são separados em grupos, de acordo com as áreas de interesse. Em um dia da semana, os professores reúnem todos os alunos para trocar experiências.

“Normalmente, nas salas de aula, os garotos são tímidos e têm dificuldade de se relacionar com os colegas, mas aqui (no Instituto) eles ficam mais à vontade porque têm com quem compartilhar seus interesses”, relata a professora.

O trabalho nas salas de recursos conta com o apoio de universidades locais. Em Maringá, os alunos fazem visitas aos laboratórios da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e contam com a ajuda dos professores.

Angelina afirma que o contato dos alunos com as universidades possibilita que as aptidões que começaram a desenvolver nas primeiras séries do ensino fundamental perdurem no ensino médio e cheguem à faculdade. “Assim, estaremos cuidando dos nossos talentos.”


Dos insetos ao sistema solar

Em Maringá, os alunos com altas habilidades atendidos em salas de recursos da cidade revelam interesses bem específicos. O pequeno Wellingthon Guilherme Linares Pereira Santos, 8 anos, gosta de matemática e de observar insetos.

Ezequiel Portela Alves da Silva, 11, é atento às questões ambientais e tem simpatia pela física. Aluno da quinta série, Marco Aurélio Janeiro, 12, tem facilidade em relacionar-se com as pessoas, é cooperativo, sociável e prefere não ficar só.

“É um líder nato”, aponta a pedagoga Luciene Celina Cristina Mochi, especialista em educação especial, professora do Instituto Estadual de Educação de Maringá.

Steferson Wesley Linares Pereira Junior, 10, já venceu o próprio mestre em uma partida de xadrez. “Ele é um excelente jogador”, elogia o pai Steferson, que é dekasségui. Junior frequenta aulas de inglês, xadrez e música.

Ele e os irmãos Wellingthon e Everton, 6 anos, são considerados garotos com inteligência acima da média. Pesquisas ainda não conseguiram comprovar se a superdotação é uma característica estritamente genética. Existem outros estudos que relacionam as altas habilidades ao estímulo ambiental.

Em casa, Ezequiel, o garoto de 11 anos, atualmente preocupado com o aquecimento global, enche a mãe Olga Maria Portela de perguntas. A curiosidade é tanta que o menino, certa vez, calculou a quantidade de gotas em um copo de água antes de beber.

“Ele tem muita vontade de estudar”, conta a mãe, que é dona de casa. Na sala de recursos do Instituto, Ezequiel sugeriu à professora que o grupo fizesse uma maquete do sistema solar. “Ele é apaixonado por física. Tenho certeza de que, quando se tornar adulto, vai se envolver com essa área.”

Olga conta que o filho foi vítima de preconceito na escola. “Os colegas o chamavam de nerd e ele sofria com isso”, aponta. Foi preciso interferência dos professores para explicar ao restante da classe que o fato de o garoto conseguir boas notas e de ter facilidade em assimilar os conteúdos não eram motivos para discriminá-lo.

Com três anos de idade, Samuel Vianna Quintanilha, hoje com 9, já fazia contas de divisão. Aluno da terceira série de uma escola particular em Maringá, o garoto dá aulas de reforço em matemática para a vizinha. Na sala de aula, a professora deixa o menino avançar na matéria. “Eu sou rápido em fazer contas e consigo terminar os exercícios antes dos outros”, diz

Segundo Luciene, ao valorizar o conhecimento, esses alunos conservam o respeito aos professores. Em tempos de xingamentos, agressões físicas e discriminações dentro das escolas, o estudante com altas habilidades aprende a admirar e valorizar quem o ensina a ler e escrever.


Rótulo de gênio é evitado

A pedagogia e a psicologia modernas não mais se referem a essas crianças como gênios. Hoje, o termo é limitado a definir a pessoa que deu uma parcela de contribuição para a humanidade, gente que provocou mudanças no mundo, como Mozart e Albert Einstein. “O garoto pode ser muito inteligente, mas se não tiver contribuído para a humanidade não tem como ele ser considerado um gênio.”

Agora, em vez de um simples teste de Quociente Intelectual (QI), são utilizadas avaliações psicológicas e entrevistas que medem as habilidades das crianças em várias áreas. Sem capacitação, professores das redes pública e particular, na maioria das vezes, não percebem no aluno a alta habilidade, já que ele pode expressá-la em uma disciplina e, ao mesmo tempo, apresentar notas baixas em outra.

Segundo Luciene, essas barreiras fazem com que o número de superdotados conhecidos seja muito aquém do existente. A professora acrescenta que o preconceito é outro empecilho para a identificação. “As pessoas agem como se não pudessem existir crianças com inteligência superior.

Esses garotos sofrem o mesmo preconceito de que é vítima uma criança com inteligência abaixo da média”, afirma a pedagoga. Para ela, os professores têm mais facilidade em identificar um aluno com déficit de aprendizagem do que em perceber um superdotado.

“O nosso país tem muito preconceito com a criança habilidosa”, comenta a professora.

Carla Guedes
carla@odiariomaringa.com.br

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