quinta-feira, junho 09, 2022
ENEM - Divulgado resultado dos pedidos de atendimento no Enem 2022
Está disponível, na Página do Participante, o resultado das solicitações de atendimento especializado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2022, nas versões impressa e digital. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou a análise dos documentos comprobatórios nesta terça-feira, 7 de junho. O prazo para interpor recurso ao resultado vai até as 23h59 (horário de Brasília) do próximo domingo, 12 de junho, por meio da Página do Participante, com envio de novo documento que comprove a condição que motiva a solicitação de atendimento. O resultado dos recursos será divulgado no dia 22 do mesmo mês.
Acesse a Página do Participante
segunda-feira, abril 24, 2017
ENEM 2017 - Candidatos surdos terão auxílio e receberão orientação na prova
terça-feira, março 31, 2015
SP Rede do Saber Videoconferência Divulgação do Curso "Todos Aprendem"
| Curso Todos Aprendem | |||
| ASSISTA A GRAVAÇÃO | |||
Nome da Videoconferência: Divulgação do Curso “Todos Aprendem”
Data: 01/04/2015 Horários: das 11h às 12h30 O curso “Todos Aprendem”, uma iniciativa do Instituto ABCD e da EFAP, é voltado para professores dos Anos Iniciais. Os objetivos são, com a formação, levá-los a identificar os alunos com risco para transtornos funcionais de aprendizagem (dislexia, discalculia e disgrafia), aplicar estratégias pedagógicas individualizadas para os alunos identificados, além de registrar e acompanhar o desempenho do aluno frente às intervenções recomendadas. A videoconferência apresenta o curso e os videoconferencistas são: Maíra Elias Manzano, do CITEC – EFAP, Luciana Fakri, da equipe curricular dos Anos Iniciais, Bruno Golfette e Juliana Amorina, ambos do Instituto ABCD. A Rede do Saber transmite a videoconferência ao vivo pelo site, e a interação poderá ser feita pelo e-mail faleconosco@rededosaber.sp.gov.br. | |||
sexta-feira, agosto 31, 2012
Prevenção de distúrbio ajuda na alfabetização matemática, diz britânica
Distúrbio neurológico prejudica a aprendizado em matemática.
Ana Carolina Moreno
Do G1, em São Paulo
Não bastassem as dificuldades já conhecidas dos estudantes em aprender matemática - no Brasil estudos mostram que 57% dos alunos do 3º ano do ensino fundamental não sabem o esperado para a idade deles - um distúrbio neurológico dificulta ainda mais o aprendizado desta disciplina: a discalculia. Especialista no assunto, a pesquisadora britânica Karime Esmail destaca que a falta de diagnóstico das dificuldades específicas de aprendizagem em matemática pode trazer prejuízos em longo prazo aos alunos.
Tão importante quanto aprender a ler e escrever no idioma nativo, a alfabetização matemática pode influir na autoestima da criança e ajudá-la no desenvolvimento escolar e na integração social, diz Karime. Professora universitária formada em engenharia química, começou a pesquisar as dificuldades de aprendizagem ao se envolver nos estudos dos próprios filhos.
"Sou uma mãe ambiciosa", explicou ela, que ajudou sua filha a se preparar para um exame de avaliação aplicado em todas as crianças do país na idade de 7 anos. "Muitas vezes os professores não têm como pegar exatamente onde o aluno tem dificuldade", afirmou. "Quando se descobre em que área ele vai pior, espera-se que ele recupere o atraso de vários anos."
Ela estima que, no Reino Unido, em média duas crianças por sala de aula sofram de dificuldades agudas em matemática. Na população total do país, 6% teriam um distúrbio conhecido como discalculia, que pode ser adquirida ou relacionada ao desenvolvimento. Quem sofre do distúrbio tem, entre outros, problemas com a conservação da memória matemática, reconhecimento dos valores das moedas e a diferenciação entre significados e medidas.
Um exemplo a comparação entre um bloco grande com o dígito 2 escrito ao lado de outro pequeno com o dígito 8 escrito. Ao ser perguntado sobre qual número é maior, quem tem esse sintoma vai apontar para o 2. Ao todo, a pesquisadora identificou 27 sintomas de dificuldades na aprendizagem, incluindo a ansiedade que faz com que o aluno tenha pouca confiança em si.
Ela alerta, porém, que a dificuldade pode ter diversas causas e não existe tratamento ou remédio, principalmente no caso de crianças. "Mas existem medidas preventivas para estimular a aprendizagem", afirma Karime. Na discalculia, o lado do cérebro responsável pelos códigos numéricos pode ter menos células e fazer menos conexões. Mas, segundo Karime, muitos pesquisadores têm estudado como o desenvolvimento dos neurônios é grande durante os seis primeiros anos de vida, e continua até os 14, dependendo das atividades que o estimulem, e como o cérebro aprende matemática.
Tecnologias aplicadas na sala de aula podem ajudar a contornar as dificuldades dos estudantes com desempenho abaixo da média. Karime lançou, em 2008, o programa Dynamo Math, que auxilia professores com planos de aula, jogos interativos e exercícios de reforço e avaliação abordando módulos específicos dos conteúdos mais básicos do currículo escolar britânico. Com 240 módulos de aulas individuais com 15 minutos de duração, o programa, em fase de tradução para o português, pode ser usado em crianças nos primeiros anos do ensino básico, inclusive alunos com necessidades especiais como o autismo.
Para ela, o esforço de diagnosticar e avaliar casos de dificuldade de aprendizagem deve ser conjunto entre pais e professores, e a intervenção deve ser individualizada. "É preciso tentar de todas as formas acender as conexões neurais. Todas as crianças devem saber somar. A questão é identificar as dificuldades e enfrentar o problema para cortá-lo na raiz", afirma Karime, que deu uma palestra na quinta-feira (30) para professores e gestores escolares no Cefac - Saúde e Educação, e participa, no sábado (1º), do Congresso Internacional da Saúde da Criança e o Adolescente, em São Paulo.
quinta-feira, setembro 30, 2010
Discalculia, o mal de números
Mariana Lenharo
Imagine um jogo de futebol entre Corinthians e Guarani no Pacaembu. Quem entra no estádio é capaz de perceber claramente que a torcida do Timão é maioria nas arquibancadas. Mas saber distinguir qual é a maior ou a menor parcela do público pode não ser tão simples para quem tem discalculia, uma disfunção neurológica caracterizada pela dificuldade de resolver cálculos matemáticos e pela falta de noção de quantidades.
Na reta final do ano letivo, esse “mal dos números”, de difícil diagnóstico, pode estar por trás do desempenho ruim do estudante na matemática – a má performance escolar, porém, pode ser influenciada por inúmeros fatores. Para dimensionar a discalculia hoje no Brasil, o psicólogo Pedro Pinheiro Chagas, pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, coordena um estudo sobre a prevalência da disfunção no Brasil, cujos resultados serão divulgados em 2011.
“Ainda há poucas pesquisas sobre o tema no País, ao contrário do que ocorre com a dislexia (distúrbio relacionado à linguagem).”
Para o cientista político discalcúlico Alexandre Barros, de 68 anos, a dislexia é mais conhecida e tratada porque as pessoas vivem de palavras. “É mais fácil esconder a dificuldade com números do que com a linguagem”, diz.
Os sinais da discalculia variam conforme a idade (veja quadro acima), mas todos os portadores do distúrbio costumam sofrer nas aulas de matemática. Segundo a psicopedagoga Valéria de Andrade Cozzolino, da Associação Brasileira de Dislexia, o discalcúlico não consegue adquirir o conteúdo por mais que se esforce e, quando os pais e os professores demoram a perceber que as notas baixas não resultam de preguiça ou má vontade, as consequências podem ser graves. “As crianças sofrem, são rotuladas pelos professores de preguiçosas e isso afeta muito a autoestima”, diz.
Especialistas concordam que o diagnóstico do distúrbio é muito complexo e que depende da avaliação de uma equipe multidisciplinar. Quézia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, explica que a discalculia é genética e acompanha o indivíduo durante toda a vida.
“Assim como o disléxico troca o ‘p’ pelo ‘d’, o discalcúlico troca o 39 pelo 93”, exemplifica Quézia.
Segundo o neurologista Luiz Celso Pereira Vilanova, professor da Universidade Federal de São Paulo, é comum que a discalculia esteja associada a outros distúrbios, como a dislexia e o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). “É mais raro ter apenas a dificuldade com os cálculos matemáticos. Estudos apontam a incidência de uma em cada 40 mil pessoas”, afirma.
Quando os professores ou os pais percebem que os tropeços da criança com relação aos números são maiores do que o comum, a recomendação é que se procure um profissional na área, como psicopedagogo ou neurologista. O tratamento, que varia de pessoa para pessoa, deve envolver o resgate da auto-estima do indivíduo. A psicopedagoga Valéria explica que, durante o tratamento, o aluno aprende a criar uma estratégia diferenciada para que ele construa seu próprio caminho de aprendizado.
DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO
- Quanto mais cedo se descobre que uma criança tem a discalculia, mais facilmente ela aprenderá a lidar com o distúrbio. Por isso, é importante que professores e pais estejam atentos aos primeiros sinais e encaminhem o jovem a um especialista o quanto antes.
- A falta de conhecimento sobre a disfunção pode provocar sérios danos à autoestima do estudante. Além de recuperá-la, o tratamento prevê também a criação pelo aluno de uma estratégia diferenciada para que ele construa seu próprio caminho de aprendizado.
Ir mal em matemática vai além dos limites da discalculia
Pessoas que têm a disfunção neurológica caracterizada pela dificuldade de resolver cálculos matemáticos e pela falta de noção de quantidades
Mariana Lenharo - Jornal da Tarde
Independentemente da discalculia, a dificuldade com relação à matemática é disseminada no Brasil. A disciplina é uma das mais mal avaliadas no País e a disfunção neurológica, na maioria dos casos, não é a razão que explica o mau desempenho. “É cultural. As pessoas se sentem autorizadas a não entender a matemática porque há o mito de que é uma disciplina muito difícil”, diz a psicopedagoga Quézia Bombonatto.
Para os estudantes que estão na reta final do ano letivo e que continuam tropeçando nos números, os professores têm uma boa notícia: ainda dá para correr atrás do prejuízo. “O aluno tem que ter ciência de que a matemática requer tempo e esforço. Ele não vai aprender tudo de repente, mas ainda está em tempo”, diz a professora de matemática Simone Schiavinato, do Colégio Paulista, que indica a revisão diária de conteúdo para depois tirar as dúvidas com o professor. “Estudar matemática não é só ler a teoria, mas também resolver o máximo de exercícios”. Nessa mesma linha, a professora de matemática Yamara Regatieri, do Colégio Sion, recomenda que o jovem refaça em casa os exercícios da classe.
Se o problema com números for complexo, como na discalculia, o diagnóstico deve ser feito por um especialista e o tratamento é a médio ou longo prazo.
Fonte: Estadão.com.br
quarta-feira, junho 09, 2010
Sem habilidade com números
Crianças e jovens com notas baixas em matemática e dificuldades persistentes, não se limitando a perder média em algumas provas, merecem atenção dos pais e alerta na Escola. O problema pode não ser apenas o desafio em assimilar a matéria. Eles podem sofrer de discalculia, um transtorno crônico na aprendizagem da disciplina, que não pode ser atribuído à falta de interesse do aluno, a uma Educação deficiente nem à escassez de estímulos. A doença ainda não foi completamente desvendada pelos cientistas, mas a estimativa é de que, por causa dela, 6% da população não tenha habilidade com os números. Em Minas Gerais, um grupo de pesquisadores está colhendo mais informações e traçando um perfil de crianças e adolescentes portadoras da síndrome. O trabalho, iniciado em 2008, está sendo feito por profissionais do Laboratório de Neuro-psicologia do Desenvolvimento da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), em parceria com o Laboratório de Genética Humana/Médica do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), com colaboração do Serviço Especial de Genética do Hospital das Clínicas, todos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e do Centro de Tratamento e Reabilitação de Fissuras Labiopalatais e Deformidades Craniofaciais (Centrare), da PUC Minas.
No estudo, crianças de 7 a 14 anos de Escolas públicas e particulares de Belo Horizonte e Mariana, na Região Central de Minas, são submetidas ao teste de desempenho Escolar. Aquelas que obtêm resultado abaixo de 25% no subteste de matemática são convidadas para uma segunda etapa de avaliação, em que passam por entrevista clínica, testes psicológicos e de inteligência. Elas também têm o sangue coletado. Até agora, 1,4 mil voluntários já passaram pela triagem. Desses, mais de 200 foram examinados na segunda fase. Segundo o coordenador do Laboratório de Neuropsicologia, o médico Vitor Haase, a meta é que 500 crianças sejam submetidas aos testes psicológicos.
Haase afirma que, além de médias insuficientes, uma defasagem de pelo menos dois anos no nível de desempenho em relação à série no qual o estudante se encontra é um forte indício do problema. “Nunca podemos falar em discalculia na 1ª ou 2ª série. É preciso fazer uma avaliação clínica e neuropsicológica”, diz.
Também acende alerta a dificuldade para decorar a tabuada ou no conceito de números, como a noção de grandezas e quantidades. O coordenador ressalta que a causa não pode ser primariamente emocional, portanto, casos de dificuldade na aprendizagem que são consequência de ambiente familiar desajustado ou de conflitos, por exemplo, são descartados. O diagnóstico também não é usado em pacientes com retardo mental.
Segundo o médico, uma situação recorrente nos pacientes é a síndrome do transtorno não verbal de aprendizagem. Estão nesse perfil crianças que têm uma inteligência normal, geralmente não muito alta, e que, no início da vida, têm um atraso de desenvolvimento: demoram a firmar a cabeça, a se sentar, a caminhar e a falar, o que é superado posteriormente. “Muitas vezes, a família pensa que o menino tem deficiência mental, mas não é o caso”, diz. Na idade pré-escolar, falam bem e começam a apresentar um comportamento de agitação. Normalmente, são diagnosticados como hiperativos, o que persiste até a idade Escolar. Na fase de alfabetização, podem ter um pouco de dificuldade também.
Haase relata que é na fase inicial do currículo Escolar que os problemas se agravam, principalmente na matemática, devido a outros comportamentos que se tornam mais evidentes. As crianças têm bom vocabulário, não trocam os sons quando falam, mas têm dificuldade com interpretação de textos, com desenhos, coordenação motora e espacial e, principalmente, um perfil bastante característico na interação social. “São amistosas, mas um pouco ingênuas, pouco perspicazes e com problemas para entender o que é adequado ou não numa determinada situação. Não têm noção da maldade das pessoas também. São indivíduos pouco intuitivos e aprendem pouco pela experiência. Esses meninos não se entrosam muito em grupos e são mais tímidos. Esses são aqueles com as formas mais puras e mais graves da discalculia”, relata. O transtorno não verbal ocorre em 1% da população em idade Escolar e, dos que se consultam na UFMG, 10% são portadores.
GENÉTICA
Uma terceira etapa da pesquisa será feita pela equipe do laboratório de genética humana do ICB, que examinará parte do genoma dos voluntários. Na conclusão dos trabalhos, os dois resultados serão comparados. Os pesquisadores já sabem que as causas da discalculia são de ordem genética, mas ainda é preciso identificar as áreas do genoma associadas ao transtorno. A universidade disponibiliza o diagnóstico para pessoas com dificuldade em matemática no serviço de psicologia aplicada. Os interessados devem entrar numa lista de espera. O telefone para marcação de consulta é o (31) 3409-5070 ou 6295.
terça-feira, abril 07, 2009
Dificuldades em matemática
Na infância e adolescência era chamado de burro. As humilhações eram diárias. Fui empurrado, durante anos, por professores particulares de Matemática, para conseguir passar de ano. Nas matérias sem números me saia muito bem. Para ler e escrever era ótimo. Tinha notas boas. Ganhei até um concurso literário na escola.
Aos 16 anos, passei a escrever, com um amigo, uma coluna sobre escotismo no Jornal do Brasil, então no auge de sua fama. Fui foca no Correio da Manhã e escrevi durante anos para o Jornal da Tarde e para a Gazeta Mercantil. Ganhei boa parte da vida escrevendo.
A desgraça eram números, contas e fórmulas. Entendia a força centrífuga (se entrasse na curva, com o carro além de uma certa velocidade, a derrapagem era certa). Fiquei emocionado quando um colega contou-me que tensão superficial era o que permitia às lentes de contato flutuar dentro dos olhos, sem neles tocar. Não entendi isso na explicação do professor, por meio de fórmulas. Fui chamado de toupeira, aos berros, na frente da turma inteira. A humilhação foi enorme.
Mesmo para discalcúlicos, conceitos complexos são fáceis de entender, se explicados com palavras. Entendê-los por meio de fórmulas, números e cálculos é tarefa inglória e quase sempre impossível.
Entrar na faculdade foi um alívio. Estudando Sociologia livrei-me das contas. De Matemática, nada além de conversões de medidas e moedas e regra de três me serviu ao longo da vida. Ainda hoje, para fazer uma regra de três, preciso remontar o raciocínio passo a passo para conseguir saber que números tenho de multiplicar e quais tenho de dividir. Quase sempre erro.
Vivi 50 e muitos anos nessa situação. As humilhações cessaram depois que terminei os estudos. Conseguia me esgueirar discretamente dos números. Evitava contas e situações que exigissem raciocínio matemático. Defendia-me eficazmente do sofrimento.
Há poucos anos, almoçando com o jornalista Márcio Moreira Alves, ele ditou-me seu novo telefone, que anotei. Vendo o que eu havia escrito, Márcio disse-me: "Você anotou os números todos trocados." Insisti que os algarismos estavam nos lugares certos. Finalmente me convenci. Estava tudo trocado mesmo. Márcio me disse: "Alexandre, você é disléxico."
O susto foi enorme. Com mais de 50 anos, Ph.D. em Ciência Política por uma das universidades mais prestigiosas dos EUA, uma tese de doutorado premiada e mais de 100 artigos publicados, fluente em três línguas, descobri que era disléxico. Não fazia sentido.
Viva o Google. Fui lá pesquisar a dislexia. Achei o atalho certo. Meu problema era parecido, mas diferente. Sofro de discalculia: uma dislexia para tudo o que se relaciona a números e Matemática.
Foi um alívio, exorcizei os demônios das ofensas e humilhações de professores. Eu não era idiota, burro ou toupeira. Eu tinha uma doença. Burros eles, que não sabiam. Mas burros com muito poder.
Atualmente convivo bem com a discalculia. Professor, pró-reitor universitário e consultor empresarial, recentemente tive de fazer cálculos de custos empresariais e me atrapalhei todo. Um colega, vendo a minha confusão, tirou-me do aperto, mas não entendeu a minha dificuldade.
Expliquei: para quem sofre de discalculia, letras e palavras se comportam muito bem. Números são crianças travessas que insistem em fazer as traquinagens que bem entendem, rindo e debochando de nós.
O drama da discalculia é muito pior do que o da dislexia, porque a maior parte de nossa vida é conduzida por letras e palavras. Os números só são necessários para atividades menos frequentes. Assim, discalculia fica mais escondida e, por desconhecida, não é identificada nem tratada.
Disléxicos também sofrem, mas sobre a dislexia já há mais conhecimento, o que propicia diagnósticos, controles e tratamentos. Discalcúlicos, porque a doença é desconhecida, são tratados como burros.
Até hoje nunca sei se o troco que me dão está certo. No dia que recebi do banco um cartão de senhas, entrei em pânico ao ver todos aqueles números. Tive com a gerente uma áspera discussão: eu não iria usar o cartão. Perdi.
Sofri para aprender. Decorei tudinho. Se algo mudar, volto à estaca zero e começo tudo de novo. Copiar sequências de dígitos para pagar uma conta via internet é uma operação que tenho de repetir várias vezes. Os números insistem em trocar de lugar. Outros algarismos travessos metem-se onde não foram chamados.
Até usar um telefone de teclas é difícil. Com frequência tenho de "discar" várias vezes o número que quero, porque erro na tentativa. Quando percebo, paro no meio e recomeço. Quando vou até ao fim, espero a outra pessoa atender e peço desculpas pelo engano. E ligo de novo. Este artigo, no entanto, tomou-me menos de uma hora e meia para escrever e rever.
Foi escrito por um impulso emocional: preciso contar a muitas pessoas que sofrem, são humilhadas, ofendidas e carregam culpas por não saber Matemática que elas não são burras, estúpidas, idiotas ou preguiçosas. São apenas doentes. Sofrem de discalculia.
Podemos viver bem e até ter sucessos na vida, desde que eles não envolvam contas. Nos damos bem até com os gráficos e com os fenômenos da Física, da Química e da Matemática, desde que explicados com palavras, e não com fórmulas. Sobretudo, não nos peçam para calculá-los.
Alexandre Barros, Ph.D. em Ciência Política pela University of Chicago, é pró-reitor do Centro Universitário Unieuro (Brasília)
E-mail: alex@eaw.com.br
ESTADÃO
segunda-feira, junho 09, 2008
Dificuldade com números é mais comum que dislexia, diz estudo
da Efe, em Londres
A discalculia, dificuldade para aprender termos matemáticos, é mais comum que a sua versão com letras, a dislexia, revela um estudo realizado em Cuba e divulgado em um congresso científico no Reino Unido.
O estudo, dirigido por Brian Butterworth, do Instituto de Neurociência Cognitiva do University College London, junto com o Centro Cubano de Neurociência, descobriu que, de 1.500 crianças examinadas, entre 3% e 6% mostravam sinais de discalculia, enquanto a dislexia foi verificada em 2,5% a 4,3% das crianças.
Da mesma forma que a dislexia, a discalculia, que consiste na dificuldade de aprendizagem de operações matemáticas ou aritméticas, pode ser causada por um déficit de percepção visual ou problemas quanto à orientação seqüencial.
Considera-se que a dislexia é mais freqüente em países que, como os anglo-saxões, têm um idioma com uma ortografia difícil.
Ao apresentar seu trabalho no Festival de Ciência de Cheltenham, Butterworth fez um pedido às autoridades e educadores britânicos para que estejam atentos aos sintomas da discalculia de forma que possam oferecer ajuda para aqueles que a possuem.
"Muitas pessoas talvez ignorem que sofram dessa condição. Caso descubram essa dificuldade, não existem organizações que possam lhes ajudar como existem para a dislexia", lamentou o professor. A dificuldade com os números tem um impacto "nas oportunidades de trabalho e na saúde", e os estudantes que sofrem dela "são infelizes", enquanto seus professores se sentem impotentes ao não poderem ajudar, prosseguiu o especialista.
Folha OnLine
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